domingo, 24 de agosto de 2014

De galinheiros e raposas

Sou do tempo de em Ourém, perdão, em Vila Nova de Ourém, não haver bancos, isto é, agências bancárias. Mas havia movimento bancário, que era feito por correspondentes, comerciantes de firmados créditos (é mesmo o termo certo!). O senhor José de Sousa Dias, por exemplo. Que descontava letras… papel comercial, e assim facilitava a vida a muito comerciante à volta da Vila Nova de Ourém.

É verdade que a idade já é provecta, mas o tempo tem escalas e ritmos e parece que foi ontem. Lembro-me muito bem de ser assim, como me lembro da revoada de “balcões” que se abriram em razão da emigração, das remessas dos emigrantes, das contas a prazo para pequenas poupanças. Ourém, ainda Vila Nova, tinha um volume de depósitos nas suas agências bancárias que impressionava quem, por formação – ou deformação – de ofício, se interessasse pelas “coisas da economia”. E o nível de aplicações locais, de investimento a partir de crédito bancário concedido não estava em proporção, pelo que se podia dizer (e disse-se…) que o dinheiro vinha de Franças e Araganças para a nossa terra e, daqui, muito ia para fazer crescer outras terras que não a nossa.

E houve “aquilo” do 25 de Abril, que incomodou os banqueiros e quem dono deles era, que se serviam dos dinheiros do povo até para tentarem impedir, violentamente, que o povo tomasse nas suas mãos o seu destino, sem tutelas, patronos, exploradores. O que levou a que os bancos fossem nacionalizados, numa primeira fase, a que se deveria seguir uma segunda que seria a de se estruturar a banca e, em coordenação com outros institutos e instituições – como IAPMEI e EPPI, ou seja, Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas Industriais e Empresa Pública de Parques Industriais –, no quadro de uma planificação, se apoiar a rede de micro, pequenas e médias empresas, e se promover a regionalização que aproveitasse os nossos recursos e evitasse a necessidade dos braços nossos e dos nossos vizinhos irem procurar trabalho lá fora.

Essa segunda fase “ficou no tinteiro”, embora algo tivesse sido passado a limpo, na Constituição e alguma legislação. “Ficou no tinteiro” porque os governos desde 1976 estavam virados para outro lado, e a maioria dos gestores públicos nomeados eram públicos no título e privados na gestão. E os “pobres espoliados” lá tiveram meios, artes e manhas para breve virem a recuperar como seu o negócio com o dinheiro que é dos outros para aumentarem exponencialmente o deles (e onde é que eles o foram buscar, os que, “coitadinhos”, tinham ficado sem nada, segundo diziam?).

E nasceram, como cogumelos, lojas e mais lojas de dinheiro-faz-de-conta. Num evidente desatino.
Estava-se mesmo a ver que ia dar bota… isto de pôr raposas dentro das capoeiras a gerir o milho!
E agora? Temos de pensar nisto. Nós. Não os que enriqueceram (mais e em desmesura) e, pobres deles, gerem os seus negócios e negociatas de suites em hotéis de luxo, cuidam das suas aplicações em praias de todo o ano, enquanto pagam principescamente a advogados para não irem para prisões de 5 estrelas. Mas não são eles que estão errados. Errado está o que criou condições para que assim seja e assim continue.

Entretanto, em Ourém, vão ficar vazias mais algumas lojas… Tudo à nossa vista!
Assim se queira ver…

Sérgio Ribeiro
publicado no Notícias de Ourém de 22/08/2014

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Onde andam os carros com um “fê” atrás?

Nos agostos dos setenta, a gente ia a um arraial, ao mercado ou ao Agroal e em vinte carros,  só um tinha matrícula de cá, os outros eram de “çavás” que pagavam a despesa do balcão, o andor e davam graças ao Senhor pela França e pela abastança.  Dizem que ainda vêm cá alguns mas já não saem, dizem  que são outras gerações, dizem que já não há a diferença da moeda, dizem que  aquilo por lá também já não é o que era mas diz--se também que os números do êxodo, que agora vivenciamos, já ultrapassaram os da década de sessenta.

Digamos pois que a emigração deu volta, depois de se ter deixado de ir para lá para fazer cá casa e se passou a ir para lá para a pagar.

Cinco quartos, quatro quartos de banho, três salas, duas cozinhas, uma churrasqueira, varandas, muros e mais janelas – grande como os sonhos. Ao lado, uma outra casa de duas águas cujo alçado principal deixa adivinhar o interior e a passagem pela emigração de quem a edificou ou mandou edificar. O mesmo alçado enquadra ainda um banco, marcado por estios e invernos, no qual está sentado um homem, marcado pela idade, com a mesma vontade de falar que outros homens e mulheres da sua idade que se sentam em lugares idênticos:

- Há uma dúzia de anos atrás ele tirava mais de duzentos contos por mês nas obras. Comprou um carro novo e pensou em fazer a casa para ver se arranjava mulher. Entretanto a coisa virou para o torto e teve de ir, os bancos não perdoam!…

Conheço filho e pai. O pai veio de França há muitos anos para que o filho que lá nasceu, estudasse cá. Desenrascou-se com obra aqui e compra e venda acolá, enviouvou e o malandro não quis nada com a escola e sempre lhe deu para a colher de pedreiro do pai.

Dando uso ao banco e conversa a quem passa, não pensa no passado, fala apenas do filho e de amanhã. Não virá num carro com um “fê” atrás, nem com dinheiro que chegue para dar aos bancos, quanto mais aos santos! Não virá como o pai vinha com ele quando era pequeno, mas virá grande como ele é, saído ao pai, e alegre e bonito como era a mãe. Irá com o pai ao mercado, à festa do quinze de agosto e ao café e dirá muitas vezes “isto é mais caro do que lá”.

- Oh se ao menos quando eu morresse ele estivesse cá! Vê-los chegar é um consolo mas vê-los partir!...

Dizem que sempre houve emigração, que as pessoas têm que procurar melhores condições, que mandam dinheiro, que não pesam ao estado, que trazem sabedoria.  Mas ninguém fala do que levam e acham normal que haja um governo que (n)os aconselhe a partir.

Luís Neves
publicado no Notícias de Ourém de 15/08/2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Coisas cá da terra

Se te sentes insatisfeito com o rumo do que vês à tua volta, não desesperes. Levanta a cabeça, faz qualquer coisa que te preencha, que te faça sentir homem grande e cheio de força. Sei, lá… vê o Benfica. Quando discutires o penalti que o árbitro não viu levanta a voz e clama os teus direitos. A dignidade de um homem não é para ser achincalhada. Exalta-te, esbraceja, dá um murro na mesa!

Se olhares à tua volta com desconfiança, não te chateies. Diz que são todos iguais, que querem é tacho. Aproveita e vai petiscar com os amigos como acontece quase todos os dias. Do topo da mesa e bem certo que te estão a encornar (eles, os políticos) chama os gatunos pelos nomes. Quando chegares a casa, tarde e bem bebido, diz-lhes que a ti não te enganam e que não tens nada a ver com essa escumalha. Que os políticos são todos filhos de uma grandessíssima e haja o que houver exclui-te por inteiro de qualquer responsabilidade. Acima de tudo, não faças nada.

Não estranhes outro banco nas notícias. Finge que sabes quanto são os mil milhões atrás de mil milhões e olha com um ar descontraído para a inevitabilidade que te enfiam goela a baixo. Bebe uma água com gás para a azia e manda calar os miúdos. Não toleres faltas de respeito lá em casa. A loiça não a lavas porque… porque não.

De vez em quando vai à missa. Leva a mulher e os filhos a almoçar e diz ao dono do restaurante que oito horas por dia é conversa de calões. Tu bem sabes a vida que levas. Os sacrifícios, as férias que quase nunca tiras. Vives para o trabalho e, se vires com atenção, o trabalho és tu. Pouco mais existe e isso é coisa de valor. És mártir da causa própria e a ti não te enganam. Não tens tempo livre mas, verdade seja dita, ainda bem que não. Afinal, o que farias com esse tempo?

Olhas com desdém para a ostentação de riqueza do novo rico mas bem lá no fundo, é isso que queres. Um carro que mostre o tamanho (!) que tens. Assim sendo deixa-te estar quieto. Não faças nada, não perguntes e não penses. E se algum dia te der na gana de ir embora pra Pasárgada, respira fundo. A ti ninguém te engana.

Pedro Gonçalves
publicado no Notícias de Ourém de 7/08/2014

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

ACORDA, POVO!

Camaradas e amigos, não consigo ficar indiferente a todas as convulsões sociais que se abatem sobre o nosso pais e o povo como que “ anestesiado” pela falsa inevitabilidade de que o empobrecimento é o caminho que os “troikanos” lhe indicam, lá vai carregando sobre si o fardo que não é seu.

Esta é a hora de dizer: BASTA, a este governo, de “parasitas” que destrói por exemplo a nossa escola publica, que destrói o nosso Serviço Nacional de Saúde, que corta pensões e reformas já de si minúsculas, que apoia o sistema bancário sem este impulsionar a economia, entre outras medidas que em nada melhoram as condições de vida das populações.

Que governo é este que “aborta” a vida das pessoas:
- que desesperadas por diversos motivos aliados à crise se suicidam;
- Que perdem os seus bens (casa, carro, poupanças):
- Que são forçadas a imigrar para sobreviver:
- Que permite que existam crianças e idosos a passar fome;
- Que permite uma elevada taxa de desemprego, sobretudo jovem;
- Que desincentiva as famílias a terem filhos;
- Que promove a miséria e causa falta de vontade de viver, entre muitas outras “chagas” e injustiças sociais.

Portugal tem hoje a taxa de natalidade mais baixa de toda a Europa e mesmo cada criança que nasce, já trás consigo a responsabilidade por parte da divida contraída pelo seu pais.
Mas o descaramento deste governo é tal, que se dá ao desplante de introduzir quando bem entende, cortes e impostos que em nada se têm refletido em melhorias para o país.
A verdade dos factos está á vista do povo português, na nossa realidade diária e na comunicação social quando feita de forma séria e transparente.

Este é o governo que não respeita NADA, nem NINGUÉM, que quer “enterrar” a Constituição da Republica Portuguesa e “pontapear” as decisões do Tribunal Constitucional como se de uma “pedra da calçada” se tratasse, empecilho no caminho destruidor que quer concretizar.

Está na hora, no minuto, no segundo, de exigirmos seriedade, honestidade e competência aos nossos governantes. As inconstitucionalidades dos últimos anos, referem que este governo é um “governo fora da lei”, que faz de tudo e quer passar por cima de tudo para aplicar a sua linha ideológica.
Ainda podemos salvar PORTUGAL!


ACORDA, POVO, ACORDA!
Rui Pinéu
publicado no Notícias de Ourém de 31 de julho de 2014