segunda-feira, 30 de junho de 2014

Coisas, cá da terra

A nossa terra é essencialmente a terra e as suas coisas. Pensar na nossa terra é também pensar nessas coisas, que sobre ela, a povoam. Principalmente porque fazemos por acreditar que nem a terra existe mais sem as suas coisas, nem as suas coisas existem numa outra terra. Assumindo isto, natural seria supor que há aqui uma qualquer harmonia, não fosse esta ilusão atormentada pela constatação de que já não percebemos que raio conduz tudo isto. Dar conta que há uma espécie de sarna que vai infestando a delicadeza da pele da nossa terra com estranhas coisas fungosas e que pelo coçar do tempo vai dando cabo daquelas por que sentíamos apreço.

Um incómodo que aparentemente pouco importa, porque na realidade nunca ninguém nos perguntou o que achávamos do que quer que fosse. E provavelmente se tivessem perguntado, responderíamos interrogando para quem essas novas coisas… Para quem queremos novos equipamentos comerciais, desportivos ou de lazer quando não temos a mínima consolidação de uma estrutura de mobilidade urbana… para quem queremos novas áreas urbanizáveis (que nem baldios onde agora brotam cogumelos exóticos da terra) quando as áreas habitadas estão destruturadas, dispersas… para quem queremos novas habitações quando em seu lugar poderíamos ter uma política activa de fomento à reabilitação das já existentes – cuja ruína vai contribuindo para que o conjunto das coisas cá da terra se assuma decadente.

O que é certo, é que o afastamento das populações na discussão sobre estas coisas, dirigido pelo Poder e seus representantes cá na terra, acaba por funcionar também como inibidor da própria vontade das populações em querer fazer parte, intervir e decidir. Agrava ainda a constatação de que hoje o poder local pouco mais é que um simples balcão onde se vai carimbar uns formulários, que pela brutal e constante redução das verbas para o seu funcionamento lhe deixa muito pouco espaço para a promoção de políticas de interesse público.

Há no entanto um espaço que se mantém em potência! E é neste espaço que devemos agir e exigir ao executivo camarário uma outra política urbana e arquitectónica: (1) por uma democracia participativa que inclua as populações nos processos de decisão, projecto e realização; (2) pela criação de equipas multidisciplinares de acção directa, de forma a se proceder a levantamentos sociais e físicos do território para um real conhecimento das necessidades e potencialidades da região, das suas identidades e idiossincrasias, permitindo um apoio prático e teórico abrangente, vital para o planeamento estratégico, consequente ordenamento do território e revitalização da economia e do contexto e tecido produtivo.

A Arquitectura como resposta social mas também como serviço público essencial pressupõe, pois, uma acção integrada entre os técnicos e as populações – encarando o técnico como agente determinante e como factor de progresso, que ultrapasse a figura do fiscal ou reguladorcolado’ ao poder político. Trata-se, no fundo, da necessidade da inclusão das populações no processo discussão sobre o Território, sublinhando a necessidade de se consagrar o direito, que a cada um de nós assiste, à Arquitectura: ou seja, ao espaço arquitectónico e paisagístico de qualidade, contrariando o seu já longo processo de exclusão.


Diogo Silva
publicado no Notícias de Ourém de 26/6/2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Fábula fora da real

          O Zé (pode ser o Zé Povinho, bem se vê) queria ter no seu quintal uma macieira. Maçãs é fruta boa. Não é lá muito requintada, é uma coisa mais para o comum, mas dá para conservar sem dificuldades vários meses. Em duas palavras, prática e versátil.

          Foi o Zé ao mercado comprar uma macieira (podia ser o de Ourém, ou outro por aqui; desde que deixemos de lado por agora "os mercados", aqueles de "colocar" dívidas). Pouco experiente nestas coisas, aquelas estacas pareciam-lhe todas iguais, as etiquetas eram pouco claras… venderam-lhe, sem ele saber, um pessegueiro.

          Escolheu o sítio, preparou a terra e instalou a árvore no quintal. Sítio arejado, com bom sol, e deixou passar as estações. Surgiram primeiras as flores, o Zé estranhou. Depois despontaram as folhas, e aquilo, mesma na sua pouca experiência, não lhe parecia nada uma macieira. Mas o tempo tudo traz, e o Zé era paciente e sabia esperar. Formaram-se os frutos, que o tempo amadureceu, e as suspeitas confirmaram-se. Grande barrete que Zé tinha levado!

          É claro que os pêssegos também não eram maus. Mas acabavam depressa. E não havia maneira prática de os guardar para todo o ano. Fartura enquanto havia, ali em três ou quatro semanas, e o resto do ano tinha de se orientar por outro lado.

          Não era nada daquilo que tinha projetado. Agora, todos os invernos, há muitos meses sem trincar nada do seu quintal, o Zé trata do pessegueiro, um bocado dececionado. E enquanto lhe cava o pé, e o aduba, e o poda, não passa um só momento sem desejar, com toda a força do seu espírito, que no próximo ano ele dê maçãs. Mas nunca dá!

          Esta é a história que me ocorre quando vejo Portugal, ano após ano, a tentar tirar maçãs do seu pessegueiro político. O nosso Zé coletivo cai sempre nas mesmas escolhas, vota sempre nos mesmos partidos. E invariavelmente no ano seguinte volta a queixar-se dos mesmos resultados. Depois, há de dizer que não concorda nada com o rumo que o "seu" partido tomou, e vai desejar ardentemente que os "seus" políticos sigam noutra direção. Mas nunca seguem noutra direção.

          Vamos lá esclarecer isto: pelos frutos se conhece a árvore, pessegueiro não dá maçãs! Se queremos um estado que sirva a população, com médicos, justiça, educação e todos os serviços perto da população, não podemos esperar conseguir isso de partidos que querem "menos estado". Se queremos um governo que resolva os problemas das populações, não podemos contar com quem só nos prega sobre privatizações, mercados, PIB e exportações.

          Tal como nos pêssegos, tudo isso pode até ter o seu sabor, o seu interesse, curto e que não responde ao que procuramos. Todos percebem que, para haver melhores condições de vida, a solução não é reforçar a fortuna de um punhado de milionários. Mas então porque continuam a esperar maçãs de uma árvore que só dá pêssegos?

(Nota: bem sei que a minha fábula é um bocado tonta, mas pensando bem não chega a ser tão absurda como algumas escolhas políticas que temos visto em Portugal)



João Filipe Oliveira
publicado no Notícias de Ourém de 19/06/2014

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Um dia numa mesa de voto


Feito o balanço e autocrítica do dia, o mais difícil ainda foi o ter de me levantar às 6 da manhã para estar antes das 7 na Junta de Freguesia da Atouguia. Lá nos encontrámos, pontualmente, os 10 que iriam compor as mesas de voto, com o Presidente e mais pessoal.

Foi fácil preparar a sala e comecei por dizer, aos outros 4 da mesa 1, que os saudava calorosamente (e ensonadamente…), e que esperava que iriamos trabalhar em equipa, sob a orientação dos mais experientes, onde me não incluía pois a minha experiência naquelas tarefas era de outros tempos bem diferentes.

E começou a função de receber votantes, secretariar e escrutinar todo o processo, de acordo com a legislação e regras, de que se recebera basta documentação. Das 8 às 7 da tarde, em boa convivência e fácil partilha de tarefas e intervalos (para almoço e outras necessidades), tal como na mesa vizinha (para eleitores de inscrição mais recente), tudo correu sem o menor incidente. Para mim, foi comovente ver velhos rostos conhecidos e amigos (alguns bem envelhecidos) e cumprimentá-los, a alguns chegando mesmo a tornear a mesa para que o abraço fosse real. Como foi enternecedor ver crianças e adolescentes que acompanhavam o pai ou a mãe no acto de votar. Em quatro ou cinco casos, foi mesmo ternura que senti porque, estando naquela tarefa, me reconheceram de outros lados – como de recentes idas a escolas ou do teatro – e manifestaram uma satisfação e até um carinho que me comoveu.

Depois da longa jornada de 12 horas, foi o complemento do que ali nos levara: contar os votos. De novo, foi o trabalho partilhado, colectivo, sem atropelos e eficiente, que possibilitou que rapidamente chegássemos ao final das nossas obrigações cidadãs.
Esses resultados logo me indiciaram o que veio a ser confirmado. Grande abstenção (maior na mesa dos mais novos), elevado número de brancos e nulos, quedas muito significativas nos votantes PSD/CDS e no Bloco, pequena descida nos do PS, subida significativa na CDU (que bem maior seria se lhe somássemos os votos MRPP e os nulos por voto duplo, neste e na CDU), subida excepcional no MPT, de certo modo cobrindo, numericamente, a queda do Bloco.

Leio, eu – na Atouguia e no País –, que eleitorado fiel do PSD ou não votou ou o abandonou, que este eleitorado não foi acrescer o que vota PS, que manteve o seu eleitorado ou pouco o subiu, que o eleitorado “flutuante” cresceu e que parte substancial dele, na sua procura de onde botar o seu voto de protesto que não tivesse “a foice e o martelo” (t’arrenego… por enquanto!) ou uma desilusão “bloqueada”, encontrou o dr. Marinho Pinto no caminho.

Não acabo o meu dia de cidadania (e todos o deveriam ser para todos) sem um sincero agradecimento aos companheiros Paulo Lopes, José Manuel, Nelson Batista e Alda Maria, que tão bem me ajudaram (ou eu a eles ajudei) na tarefa cidadã da mesa 1, uma saudação a todos que, em todo o País, se assumiram cidadãmente, permitindo-me fazê-lo com muito particular apreço para os que votaram CDU. A luta continua nas novas condições criadas no final deste dia de cidadania.
Sérgio Ribeiro
texto publicado no Notícias de Ourém de 29/05/2014

sábado, 24 de maio de 2014

Escolher quem nos represente foi um direito conquistado…

... e, se me permitem escrever do que sei por experiência vivida, não foi conquista fácil!
Viver em sociedade, como seres humanos que somos, implica direitos e deveres. De todos para com todos. É certo que há diferenças, que cada um de nós é único. Mas há princípios e valores que respeitam a todos. Ninguém discute alguns direitos, mas há relações sociais que, ao privilegiar os interesses individuais, por o egoísmo prevalecer sobre a solidariedade, agridem esses direitos, ou até os anulam em relação a muitos dos contemporâneos e, sem disso se ter clara consciência colectiva, também aos vindouros.

Dizer que se vive em democracia é afirmação fácil que se comprova no facto do voto, enquanto direito de todos, ter sido conquistado. Duramente, insiste-se. Para homens e mulheres.

Mas a democracia tem, como a sociedade, várias vertentes: política, económica, social, cultural. E sendo o voto necessário, como forma de se escolher quem possa representar outros, ou todos de um colectivo nas instituições (e nas colectividades, quais elas sejam), não é suficiente e exige uma questão prévia: a informação de quem escolhe relativamente a quem o vai representar, quais as suas intenções, programas, projectos. Só dessa informação pode resultar uma relação de confiança, que o “prestar de contas” permanente confirmará ou infirmará.

Não haverá eleições mais complexas que estas que se aproximam. Porque é para um órgão que nada diz aos representados, aos cidadãos que escolhem, e, do que sabem, pouco é ou é propaganda e desinformação. Porque essa escolha, para esse órgão, é de enorme importância, num mundo cada vez mais internacionalizado, nem por isso menos baseado no local, nas vivências quotidianas. De quem escolhe quem os represente.

Entre 22 e 25 de Maio, em 28 países, Estados-membros de uma dita União Europeia (de que a “trempe” que nos infernizou  a vida – e ameaça continuar – tinha dois “pés”, a Comissão e o Banco Central Europeu), um universo de mais de 500 milhões de pessoas vai escolher 751 deputados que os vão representar num Parlamento (dito) Europeu. A nós, portugueses, cabe-nos escolher 21 – já foram 25 – e será no domingo, 25.

Mas não só é para uma instituição longínqua, pouco e mal conhecida, como se desconhecem quase totalmente os candidatos. Não é como escolher os vizinhos que melhor estarão na Junta, ou os próximos que irão para a Câmara, ou os candidatos do nosso distrito que irão para a Assembleia da República. São listas nacionais, não da freguesia, do município ou da região. E para irem representar-nos em Bruxelas e Estrasburgo (ainda há uma terceira sede – administrativa e judicial –, no Luxemburgo). Por isso mesmo, a informação, as ideias, os programas, ainda seriam mais necessários para uma escolha consciente.

No entanto, essa informação é possível por via directa do conhecimento vivido (e sofrido) das políticas e estratégias que nos têm vindo da U.E., de que têm sido veículos e protagonistas os partidos que, desde os anos 80, nos têm (des)governado – PS, PSD, CDS –, “bons alunos”, mais que disciplinados, obedientes ao que uma Noruega recusou duas vezes, a Suiça não quer, o Reino Unido, a Dinamarca, a Suécia optaram por ficar de fora (da moeda única, por exemplo).

Por isso, antes de tudo, a escolha de quem nos represente tem a ver com o país que se quer numa Europa que não seja o que a U.E. pretende ser, mas uma Europa solidária e em paz. Por isso, o voto de cada um parecendo indiferente ou inútil, é uma decisão importante. Única, imprescindível.
É um dever, como sempre a contrapartida de um direito conquistado!

Sérgio Ribeiro

texto enviado para o Notícias de Ourém para ser publicado em 23/05/2014            

terça-feira, 20 de maio de 2014

Ti Alice

Ti Alice do Carvalhal ficou viúva com cinco filhos às costas e fez das tripas coração para chegar aos setenta e sete anos que agora completou. Para assinalar o feito convocou os herdeiros diretos, dispensando netos, noras e genros, e fez uma panelada de chícharos.

A mais nova, professora, anda revoltada e deprimida com o que está a acontecer nas escolas. Os irmãos acham que ela era uma privilegiada e acham muito bem que a obriguem a não gostar do que faz.
O segundo mais novo é operário e anda preocupado porque é voz corrente que a empresa vai ser deslocalizada. Os irmãos acham natural e que a culpa é dele porque estava acomodado ao dinheirinho certo ao fim do mês e nunca se esforçou por fazer outra coisa.
A do meio tem um “comes e bebes” mas a coisa vai de mal a pior porque a malta não tem dinheiro. Os irmãos sempre acharam que ela escolhera aquela vida porque não dava trabalho e que puxava nos preços quanto queria e, por isso, as suas dificuldades não os comovem.
O segundo mais velho anda na construção e anda desanimado porque a coisa vai torta. Os irmãos acham que ele quase que chegava a rico sem saber ler nem escrever e que é bom que se convença que não tem pinta para ter um mercedes cinzento.
O mais velho é criador de gado e, com o que lhe vão exigindo, vai ter de fechar a exploração. Os irmãos concordam porque não lhes agrada o cheiro que, às vezes, anda no ar e porque, além disso, ele dá medicamentos aos porcos.

- Vocês parece que se esqueceram que precisam uns dos outros! Não foi para ver isto que eu vos andei a criar! Fazem lembrar-me os do governo que atacam tudo a torto e a direito, convencidos que a única coisa que funciona bem neste país é a governação! Estais angustiados porque vos convencestes que o vosso mal era o bem dos outros e que ficaríeis bem se os outros ficassem mal!
Pois eu preciso de vós os cinco. Deixei de fazer queijos pelo facto de me exigirem azulejos e uma retrete – por que raio é que eles acham que para fazer queijos é preciso uma retrete?! - e fiquei conformada com a reforma mínima! Agora vejo que errei, devia ter lutado contra os poderosos e acomodei-me! Agora peço-vos que me ajudem, quero 50 euros de cada um como prenda de anos!... Em quem vais votar?

- Eu nunca votei!
- Eu nunca mais voto!
- Votar, para quê?
- Com o meu voto, ninguém conte!
- Eu voto na puta que os pariu!
- Puta que os pariu aos cinco! Querem ver que tem de ser a velha a votar por vocês todos! ! Quem não vota, consente! Em quarenta anos de votos nunca tive tanta vontade de votar! Vou votar sim! E desta vez vou votar na CDU! Vou votar contra os bandos de soares e de cavacos que há trinta e tal anos que nos andam a vender europa e vai a ver-se o que venderam foi o país. Vou votar porque acredito que não é com esta cambada de vaidosos “adoutorados” e “endinheirados” que se resolve a crise mas sim com aqueles que há anos que avisam o povo que quanto mais desta europa, pior deste país!...


De saída, os cinco trocaram entre si umas palavras: se a gente nem dinheiro tem para a pôr no asilo, o melhor é votar como ela diz!... 

texto que não foi publicado no Notícias de Ourém de 16/5/2014

terça-feira, 13 de maio de 2014

Eleições à porta

Embora ande muita gente distraída – com o futebol, com as “saídas limpas” carregadas de falácias e mistificações mas que criam falsas esperanças, com o sol que chegou e convida a banhos do dito… nem que seja à porta de casa, com muitos etcs. – vai começar a campanha para a eleição, no dia 25 de Maio, dos deputados portugueses para o Parlamento Europeu. Entre 22 e 25 de Maio assim acontecerá nos países que são os agora Estados-membros de uma associação chamada União Europeia. E assim acontece desde 1979, sendo esta a 8ª vez que se realizam tais eleições em que os portugueses participam, escolhendo os seus representantes, desde 1989 (isto é, desde a 3ª vez). Sendo o homem as suas circunstâncias, as minhas fizeram com que tivesse sido candidato nas 3ª, 4ª, 5ª e 6ª, e sido eleito por forma a cumprir o todo ou parte desses 4 mandatos. Lembro-o como de um dever cumprido (e comprido!).

Olho esse(s) período(s) da minha vida como tempo de muita responsabilidade, de muita aprendizagem (a somar ao sempre pouco que se sabe), de muito trabalho. Lembro que reforcei a consciência da importância que essa frente de trabalho (e luta… como todas)) pode ter para todos nós. Por isso me enervo e denuncio quem não tem (ou não quer ter) essa consciência e faz, da passagem por eleito pelo povo português, um passeio (bem pago), um devaneio (para usofruto pessoal), um passo (um trampolim) numa “carreira”.

Por isso me choca e agride (sem intenção do agresssor…) ouvir aquela costumeira diatribe de “são todos iguais!”. 

Na derrapagem (que desejo controlar) de falar do que fiz, aconteceu-me que, ao ir consultar estatísticas no site oficial do Parlamento Europeu para confrontar prestações de deputados eleitos, espreitei os dados que a mim respeitam, não como Narciso se vê ao espelho mas em exercício de auto-crítica. Comecei por confirmar que, na 6ª legislatura, estive lá de 20 Julho de 2004 a 11 de Janeiro de 2005 (4 escassos meses úteis). (Tão cedo sai por ter tido a “sorte” de ter conseguido um importante relatório para os pescadores portugueses (sobretudo açoreanos), que vi aprovado apesar de forte oposição, sobretudo de espanhóis na defesa de interesses ligados à pesca de fundo e arrasto, tendo assim cumprido o compromisso para aceitar ser candidato por considerar ter justificado a minha eleição, sendo substituído por quem me seguia na lista, que estava “na calha”… até pela idade). Curiosamente, o cabeça de lista do PS para 25 de Março, que cumpriu todo o mandato – ou seja, 5 anos! – também apenas fez um relatório, fez o mesmo número de intervenções em plenário que eu (26) e fez apenas 9 perguntas parlamentares enquanto eu fiz 13!

Depois ninguém se admire que fique irritado quando ouço a tal frase dos “todos iguais”… Aliás, o João Ferreira, durante a 7ª legislatura fez só (!!!) 1854 intervenções, 57 relatórios e pareceres e 811 perguntas, e a Inês Zuber (2º nome da lista da CDU para 25 de Maio) e a Ilda Figueiredo (que a Inês foi substituir), durante o mandato que dividiram entre si, fizeram 1651 intervenções, 101 relatórios e 661 perguntas.

Cada número destes mereceria estudo e comentário. Não há tempo, nem espaço, nem (pre)disposição, tão necessários para que a escolha de quem nos represente seja fundamentada Mas esta seria a prática sadia de
democracia, que nem assim se esgotaria na vertente representativa.

Como sempre, daqui até 25 de Maio estaremos à disposição para o esclarecimento que qualquer um achar útil para melhor poder contribuir para a mudança necessária. Porque “isto” precisa de mudar! Ou não?!...

Sérgio Ribeiro
publicado no Notícias de Ourém de 9 de Maio de 2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

João Ferreira em Ourém

João Ferreira,  cabeça de lista da CDU ao Parlamento Europeu estará na sexta-feira, 9 de maio, no distrito de Santarém. João Ferreira estará de manhã em Tomar, à hora do almoço em Ourém, de tarde, em Abrantes e Entroncamento, jantando com apoiantes nesta localidade ferroviária. Pelas 21h30, o eurodeputado estará ainda numa sessão pública em Torres Novas.


12,30h - Ourém, contacto com comerciantes e a população.

domingo, 4 de maio de 2014

Até quando TRABALHADOR?


Entrar às oito da manhã preparada para aguentar seis horas de pé, até que a medo pergunta:
- Posso ir almoçar? Eis que se repete a resposta:
- Quando os últimos saírem podes ir …

Abre com receio o frigorífico, nada será pior do que o que comera no dia anterior, sem espanto repete a refeição, os seus olhos quase não tem tempo para olhar a refeição de requinte a ser servida aos clientes, tem vinte minutos para engolir sem quase mastigar, hoje teve a sorte de ninguém a chamar no seu “grande” intervalo.
Copeira, empregada de sala, loja ou de limpeza, rececionista ou ainda todas numa só, ESCR….Queria dizer o nome mas é demais descritivo para quem possa estar a ler esta crónica.

Esperam-lhe mais cinco horas até que alguma voz se lembre de dizer:
-Vai lá buscá-la …mas não demores, ainda temos três grupos!
Numa corrida chega depois da hora, é convidada a assinar algo que a vai fazer pagar mais na mensalidade, olha para a pequena que lhe esboça um sorriso, mas que teima em não ir com ela, ambas não tem tido tempo de criar laços de confiança.
Num choro penoso lá vão as duas, a casa a vizinha é logo ali a frente…. Já no colo da vizinha a pequena levanta o braço para dizer adeus, algo que aprendera a fazer desde sempre.
De volta conta os trocados que lhe restam no “pobre-moedas”, as despesas aumentam, sabe que já não poderá contar com a reforma da mãe pois essa é repartida com o Estado Português.
A categoria de “economista” junta-se ao seu currículo alargado.
De avental colocado há que fazer cara feliz para não afastar a clientela, prevê-se uma noite longa, a sua saída não sabe, se for como de costume, às nove e pouco está despachadinha.

Ouve-se as dez badalas da Basílica do Santuário de Fátima, só agora recolhe a sua pequena já a dormir.
Amanha é outro dia, irão passar pelo menos mais seis até que possa gozar o seu único dia de folga semanal, pois o fim-de-semana não existe para ela, e ferias? Férias só para o próximo inverno, inverno esse que conta passar num lugar paradisíaco chamado “FUNDO DO DESEMPREGO”.

Com 485 euros mensais e mais umas esmolas por cada fim-de-semana, não deu para juntar nada para umas férias nas Caraíbas ou até mesmo aqui bem perto na Serra da Estrela!
Vai aguardar até que a sua Cidade seja inundada de peregrinos, talvez nessa altura alguém se lembre de a chamar de novo.
Esta é a realidade que já vi e ouvi de varias trabalhadoras e mães a Elas presto o meu voto de louvor.
Ate quando trabalhador? Trabalhador sim, mas com direitos…direito a outra palavra no dicionário, pois a mesma tem outro significado.

Cláudia Filipa Pinéu
in Notícias de Ourém, 2 de Maio 2014

sábado, 26 de abril de 2014

40º Aniversário da Revolução de Abril


Lembrar e comparar….

A Revolução de Abril foi uma realização histórica, nasceu da vontade do povo português, e transformou – se numa afirmação de liberdade, de emancipação social e de independência nacional.
Finalizando uma prolongada e heróica luta antifascista, pôs fim a 48
anos de ditadura, à guerra colonial, ao isolamento internacional de Portugal, e realizou profundas transformações políticas, económicas, sociais e culturais que abriram na vida do País a perspectiva de um novo período da história marcado pela liberdade e pelo progresso social.

A classe operária, os trabalhadores, as massas populares e os militares progressistas – unidos na aliança Povo-MFA – tiveram um papel fundamental em todas as conquistas democráticas, que foram depois consagradas na Constituição da República, aprovada em 2 de Abril de 1976.
Foram elas:
- Liberdade de expressão, de reunião, de manifestação, de associação e de imprensa.
- Liberdade de criação cultural e artística
- Direito à saúde, ao ensino e a segurança social
- Liberdade sindical, direito à contratação coletivas
- Direito à greve
- Salario mínimo nacional, subsídios de férias e de natal
- Subsídio de desemprego, pensões e reformas generalizadas a todos
- Igualdade de direitos para as mulheres e direito à licença de maternidade
- Liquidação do monopólio do Estado e dos grupos económicos a ele associado.
- Reforma agrária, nacionalizações e controlo operário
-Eleições livres e livre formação dos partidos políticos e movimentos sociais
- Direito ao voto aos 18 anos
- Autarquias Locais democraticamente eleitas e criação das Regiões Autónomas
- Melhoria das condições de vida do povo
- Diversificação de relações externas e fim do isolamento internacional

Apesar das suas aquisições históricas, muitas das principais conquistas de Abril foram, entretanto destruídas. Outras, embora mutiladas, continuam presentes na vida nacional.

O 40º Aniversário da Revolução de Abril assinala-se num momento em que o povo português vive uma grave e profunda crise económica e social.
Portugal está debaixo de uma intervenção externa que enfraquece a sua soberania e independência. Assistimos diariamente o aumento da exploração e destruição dos direitos laborais e sociais do povo português; afunda-se a produção nacional, arruina-se a economia, endivida-se o País, destrói-se o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, o Serviço Público de Segurança Social, manda-se trabalhadores jovens e mais velhos para o desemprego ou para o estrangeiro….

Está em causa o futuro de Portugal.
Que Portugal queremos?
É este o Portugal que terá futuro?

O futuro de Portugal como País democrático, desenvolvido, soberano e independente, não pode ser assegurado pelos mesmos que trouxeram o País à grave situação em que se encontra.


Está nas nossas mãos, retomar o caminho de Abril!

Margarida Poeta
in Notícias de Ourém, 24 de Abril 2014 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os últimos presos do Estado Novo


O Expresso levou ao forte-prisão de Caxias alguns sobreviventes da última leva de presos políticos. A DGS fora buscá-los a casa na manhã de 18 de abril de 1974.

Um desses sobreviventes é o nosso amigo, companheiro e camarada Sérgio Ribeiro. 


Veja mais sobre a reportagem no caderno especial do jornal Expresso de hoje, "25 de Abril - 40 anos" ou no Expresso Sapo.


E já agora, porque é sempre bom recordar, as imagens que mostram o momento:
Os presos políticos começam a ser soltos, reconhecem-se entre outros, Sérgio Ribeiro e Palma Inácio que é abraçado por Urbano Tavares Rodrigues a Sophia de Mello Breyner e presta as primeiras declarações.



terça-feira, 15 de abril de 2014

A Feira dos Produtos da Terra e por aí fora


Chegam-me ecos de que a Feira dos Produtos da Terra teve impacto, que teria sido um êxito e que se firma como iniciativa já com passado e com futuro.

As reflexões que tal me suscita são contraditórias. Por um lado, encontra-se, nessa iniciativa e sua concretização, o reflexo do que mais valorizo na sociedade, que é a capacidade (histórica, milenar) de resistir aos ataques, às agressões, de se movimentar como corpo vivo, de, na procura de satisfação das suas necessidades, encontrar formas, diria… informais, de se organizar, ou seja, de, numa terminologia que inverte e subverte o matraqueado como lugares comuns, frases feitas, “narizes de cera”, e dá pelo nome (ou expressão) de “a crise criar oportunidades”; por outro lado, e partindo deste papaguear, mas dando-lhe outro sentido, estas iniciativas podem amortecer os efeitos da crise, como são exemplos, também, as (e)migrações, tornando tolerável o que, sem essas respostas do corpo vivo que é a sociedade, seria intolerável e mais depressa levaria às inevitáveis e urgentes mudanças.

Mas é assim, e nunca se defendeu (ou nunca defendemos) posições de “quanto pior melhor” para sobre as ruinas irrecuperáveis construir o novo, como se o novo pudesse começar sem o aproveitamento do que o velho de bom vai deixando. Uma questão a que Abel Salazar chamava “totalização de experiência”. Sim, porque partilho a ideia de que a revolução não é queimar a terra, é limpá-la do que a impede de produzir, é mudar a qualidade das coisas que atingiram o seu limite de acréscimos quantitativos, é substituir, de forma radical, as relações sociais que são obstáculo à humanidade e ao seu futuro.

Acresce que, neste momento (histórico como todos, mas uns mais que outros…), o economista que sou tem de estar atento à deflação, isto é, em vez da ilusão monetária que fazia os rendimentos das gentes correrem atrás dos preços sempre a subir, da inflação, o ataque brutal a esses rendimentos tem de ser compensado, como num sistema cibernético (demasiado frio/aquecimento, demasiado calor/refrigeração), com alguns preços em baixa para que as necessidades básicas permitam a sobrevivência. Em condições precárias porque se destroem serviços públicos como os relativos à saúde e à educação antes de todos – vivendo com menos qualidade, morrendo mais cedo, aprendendo menos da vida e da história, acumulando saber seleccionado e apenas orientado para o serviço da acumulação de capital nas mãos de poucos –, aos transportes, ao ambiente, ao viver em sociedade com direitos e deveres, de tudo se fazendo negócio, fazendo do negócio o único meio e do mercado o único juiz.

Pagam-se mais impostos, desconta-se mais nos salários para melhoria das funções e tarefas que ao Estado competem? Não! Para que quem explora o que é de todos (e, antes de tudo, o trabalho) o continue a fazer, para que a especulação remende os desastres que provocou sem qualquer peso, conta ou medida e prossiga na mesma senda, sem que sequer se penalizem os que evidentemente agrediram a (sua) lei e que, com migalhas do resultado desses crimes paguem advogados e expedientes legais que os tornem impunes.

Esta União Europeia, que prometido foi que faria correr rios de mel para todos, vai concentrando o que é doce só em alguns (países e sobretudo estratos sociais), e deixando mais fel para… os outros (países e sobretudo camadas sociais). Claro que estas dinâmicas, servidas por estas estratégias, são insustentáveis a prazo. Mas que se importam eles, dizia Keynes, se a longo prazo todos estaremos mortos, e há quem se encarregue de, por menor acesso ao que é conquista de todos, ou por uso e usofruto da mercadoria privilegiada que são as armas, encurte os prazos em que a maioria poderia viver com qualidade humana.


Ao que me trouxe a Feira dos Produtos da Terra! À esperança que cresce enquanto a raiva se multiplica, como diria o/um poeta.     

Sérgio Ribeiro
in Notícias de Ourém, 11 de Abril 2014 



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Carta ao meu país ausente

Cresci no meio da esperança. Abril estava ainda fresco, muito embora – sei-o  hoje – já com as traições Barreto/Soares/Cavaco em marcha.  Lembro-me das palavras ternas, lá em casa, quando se pronunciavam as conquistas, os avanços, as esperanças… sempre as esperanças.
Das poucas vezes que vi água nos olhos ternos do meu pai, foi ao falar (gritar ternura?) da Reforma Agrária  no mais sublime slogan que a justiça usa para se vestir no alfabeto: «se lhe dás sangue e suor é justo que te pertença!» . Eram tempos de alento, de meiguice, de infância, é certo (minha e da Revolução), mas de tremenda alegria, como sempre são os Homens Povo quando sentem o destino nas mãos. 
Lembro-me do meu pai ir mostrar-me Coimbra, a Universidade, sabendo que agora estava ao alcance de todos, pois Abril era a alegria universal.
Lembro  slogans pintados nas paredes caiadas do sul (atravessado a cumprir o direito às férias que só Abril soube!) « Casas caiadas e pão!», e as letras dos coros alentejanos reforçando a certeza de melhor velhice, na assistência inaugurada com as UCP – que também trouxeram as primeiras creches (e o pleno emprego, e o pão, e o pão e o pão…).
Tive uma infância saborosa, nas guloseimas que a avó Mimi comprava com a pensão de sobrevivência que Abril lhe outorgou.   Bebi dos pacotinhos de leite que Vasco Gonçalves obrigou nas escolas para colmatar as carências das infâncias .  Os médicos (e até palhaços, sabiam?) visitaram-nos na escola primária para que a geração de Abril não soubesse  do trabalho ainda meninos nem das doenças que nenhuma infância merece.  
Vi velhos aprenderem a ler. Soube da garantia do salário mínimo. Vi crescer escolas, hospitais, saneamento básico, electrificação  das aldeias, centros de saúde, creches e o jardim infantil  onde, montado em cavalos de ferro,  sonhei um Abril ainda maior, estendendo a sua alegria a todos os meninos do mundo. 

Hoje, vendo sofrer um país real em nome de um país só visto pela especulação do neo-fascismo capitalista, vendo amigos e irmãos a abandonar a sua terra, assistindo à entrega  da nação ao imperial interesse dos agiotas, rememoro tempos contados de espancamentos, torturas, fomes. Abril está longe. Mas mesmo na noite mais triste….

António Lains Galamba
 in Notícias de Ourém, 5 de Abril 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Eles que emigrem

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta, mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- Foi o pai que chegou, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o nosso menino?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores filho! Já tens pai!
Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…
Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!
Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai, talvez por ser 19 de Março, talvez porque tenho pensado em emigrar e encontro nestas pequenas histórias de família força para não o fazer. Também, se mais razões não houvesse, só o facto de eles nos aconselharem a partir, já é razão suficiente para ficar.


Luís Neves
in Notícias de Ourém, 21 de Março 2014

domingo, 16 de março de 2014

Coisas cá da terra

Talvez seja inoportuno e até inconveniente, advertir que as Coisas cá da terra, também são Coisas cá na terra.
Uma consequência natural das Coisas cá da terra, não serem só coisas cá na terra, é, apesar das coisas cá na terra serem Coisas cá da terra, as coisas cá da terra não são necessariamente Coisas cá na terra.

É nesta altura, ou profundidade, da confusão, que o anunciante o mima com o embrulho promocional da saída com solução (e ainda oferece uma lágrima, uma massagem capilar e um seguro de saúde). Ainda bem que suspeitou, sobram-lhe razões para isso.
Vossemecê sabe bem que a indignação mal arrumada, comporta sérios riscos para a saúde, e, sendo esta o bem-estar físico, psíquico e social, todos os cuidados são poucos.
 Desconfie logo de comportamentos estranhos como, pessoas ao estalo...na própria cara, na sua, e na que estiver mais à mão. Há outros sinais e sintomas, todos eles contribuindo para – Estados – de delírio e confusão. Proteja-se e informe-se. Estas circunstâncias tornam-nos muito vulneráveis, e são sempre aproveitadas por oportunistas, expondo-nos constantemente às propensões liberais, sempre novas e modernas, para o gamanço...da nossa Saúde, que é como sabe, o bem-estar físico psíquico e social (estou a repetir-me?).

As coisas mudaram caro cidadão.
Extinguiram-se os assaltantes de bancos, para passar a haver assaltos com bancos; quando julgávamos que os falsários só andavam por aí nos montes trocando o dinheiro por notas falsas, ou se tinham emendado, eis que achamos no bolso o dinheiro deles, que mais parece areia do deserto, ou um monstro que rapa todas as migalhinhas da mesa, que corrói os rendimentos e a vida como se fosse um qualquer parasita, cuja cura e melhor solução é, Aguente-se! Tome um Aguente-se! de doze em doze horas, e...Aguente! Aguente! que isso passa, sobretudo não faça nada, não combata essa misteriosa doença, não agrave o seu – Estado -, porque aí a culpa é toda sua! Para se defender, faça de conta que não tem nada, sequer nada que ver com isso. Siga escrupulosamente a prescrição do Aguente-se! qualquer dúvida, consulte as indicações do seu farmacêutico ou prescritor favorito, numa televisão ou jornal perto de si, que é para isso que eles lá estão, diariamente, de manhã à noite informando-o da evolução desta epidemia, notificando, no seu interesse, sempre que for necessário aumentar a dose do Aguente-se! Aguente e não vacile, tome logo o Aguente-se! que, obviamente, se não for óbvio não tome, é tudo para aguentar bem e melhor.

Ah, e, acima de tudo ou em cima de tudo, mantenha a esperança, a confiança e em especial o consentimento. O Belmiro, o Amorim, o Ulrich e mais umas centenas de novos casos conhecidos, são um exemplo flagrante de que é possível aguentar esta pandemia (que é como se diz quando o gamanço da saúde é global), com recuperações tão validadas e indiscutíveis, que ganham fama internacional nas mais conceituadas revistas da especialidade.

 P.S. se se sentir com náuseas, tremuras, bruxismo (que é o ranger de dentes), rigidez na mão, ou compressão torácica, isso significa que a sua zona de conforto está contaminada. Os especialistas têm recomendado o abandono imediato dessas zonas.


Marco Jacinto
in Notícias de Ourém, 14 de Março 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

Discreteando, discretamente


As reuniões da Assembleia Municipal sucedem-se. Umas vezes, sentindo que são poucas para o que seria necessário; outras, pensando que não valem a pena. Se depende da variação do estado de espírito, estas mudanças resultam, objectivamente, do estádio a que, no consenso geral, se chegou (ou se não chegou) à consciência do que é democracia.

Vou no 5º mandato autárquico (e mais um na AM da Amadora), e não vejo a evolução que tanto desejo (e por que, bem ou mal, tanto lutei e luto).
Os cidadãos elegem os seus representantes periodicamente – de 4 em 4 anos para a AR e autarquias, de 5 em 5 anos para PdaR e para o PE – e, depois, ficam à margem da política… Ou a discutem – sem cuidarem de se informar – a partir de ludíbrios como o de haver uma “classe política” que “vem ao mercado” de 4 em 4 e 5 em 5 anos.

Pois a democracia exigiria que os cidadãos acompanhassem, nos locais próprios, o modo como os eleitos exercem os mandatos de que foram investidos, como cumprem aquilo a que se propuseram e terá merecido os votos concidadãos. Que participassem!
Continuarei a lutar…

A reunião de 28 de Fevereiro foi mais uma. Sem público, ou sem intervenção de público, em que os “eleitos” fizeram o seu “número” , ou marcaram presença para receberem a respectiva senha (os que a recebem).

Nela até nos vimos obrigados a afirmar que não tinha intenção de ofender o uso da expressão “separar o trigo do joio”, aliás vinda de um catecismo que não é o nosso. Mas não deixaremos de a usar ou, em alternativa, a de que se “atira areia para os olhos” quando, na reunião de 27 de Dezembro, se saúde quem, alardeando um arreigado amor a Ourém – como se disse mas não ficou em acta –, se dispôs a cumprir, a partir de 1 de Janeiro, um mandato de presidente do Conselho de Administração da EM OurémViva – o que até nos levou a mudar o voto contra para abstenção solidária – e, na reunião seguinte, nesta de Fevereiro, nada se dissesse sobre a mudança verificada, no curtíssimo intervalo, na situação desse lugar fulcral da administração autárquica. Silêncio que foi impedido, por nós, que acontecesse.

Assim como não deixaremos que “soluções” – por mais legais que sejam – acolham, sem protesto, estatutos como o de alguém ser assessor de si próprio. Ou que, por via de exigências legais, e suas formulações, tenhamos de continuar a considerar de interesse público o que, pelos precedentes, tem servido para devastar povoações. Ou que, sem o protesto de um representante (ainda que único), se arranjem artifícios aparentemente muito benéficos para os “utentes” enquanto se destrói o Serviço Nacional de Saúde, privatizando o negócio da doença. Ou que, em sede de um lugar político, fique sem referência e alerta a situação mundial que se vive e configura um demencial caminho para uma guerra que seria (como tem sido e já é) um desastre humanitário.  


Sérgio Ribeiro
in Notícias de Ourém, 7 de março 2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

AM de 28.02.2014 - 5

Proposta camarária relativamente ao licenciamento de uma pedreira por interesse público:

02.02
Declaração de voto:
O Grupo por Ourém votou contra por ter tido insuficiente informação (apenas a conclusão de parecer pedido a advogado, enquanto os vereadores fundamentaram o seu voto em todo o parecer) e pelo precedente de se considerar de interesse público o que vem destruir povoações como é o caso flagrante de Boleiros. 

AM de 28.02.2014 - 4

Intervenção sobre a moção proposta pelo presidente da Junta da freguesia “União de freguesias da Gondemaria e Olival” relativamente à Igreja de N. S. da Purificação, no Olival:

Evidentemente que o Grupo por Ourém votará a favor. E, na sequência de intervenção já feita aquando da informação do Presidente da Câmara, lembra-se a visita ao nosso concelho de responsável da área cultural da Comissão Europeia, promovida pelo então deputado no Parlamento Europeu que vivia e vive em Ourém, e em que esse responsável da Comissão foi contundente quanto à eventual destruição da “igreja velha do Olival”, considerando-a um crime.
Essa visita foi realizada com o apoio do executivo de então, a propósito do novo telhado da Sé Colegiada de Ourém, para que se tinha conseguido subsídio comunitário, e esse responsável da Comissão visitou outros locais de interesse histórico-patrimonial, como essa igreja da N. S. da Purificação, a capela de S. Sebastião, a ermida da N. S. da Conceição, e abriu possibilidades de cooperação sobre património histórico-cultural num debate realizado no final da visita, na sala onde então se realizavam as sessões da Assembleia Municipal.

Dessa visita terá resultado, pelo menos…,alguma melhor ponderação quanto ao destino a dar à “igreja velha do Olival”, possibilitando que, hoje, se faça a proposta deste voto.

AM de 28.02.2014 - 3

Declaração política (condicionada a tempo regimental):

01.04
Senhora Presidente, membros do executivo, eleitos da Assembleia, público, comunicação social,
as minhas  saudações
Depois das saudações, tenho de começar como na reunião do mesmo dia do ano passado, como fiz na reunião de 27 de Dezembro do ano passado… e por aí atrás:
«Mais cortes, declínio, exploração e empobrecimento, é o que o governo anuncia e pretende impôr a propósito da chamada sétima avaliação da
”troika, realizada no quadro do aprofundamento da recessão que o próprio governo foi forçado a reconhecer.
Ou seja o prosseguimento das falências, desemprego e endividamento.
O descalabro económico e social a que a atual política tem conduzido está cada dia que passa mais presente no País(…)». Diria cada ano que passa!

E a luta que continua contra esta política que prossegue, agora entre o resgate e o programa cautelar. E as eleições para o Parlamento Europeu uma semana depois de termo do que se pretende continuar comoutra fachada e crismado com outro nome. Dar-lhe-emos luta.
O que acontecerá num contexto internacional perigosíssimo que, sem alarmismos ou catastrofismos, nos devia preocupar a todos, dado o caminho para uma guerra generalizada. Caminho que tem de se travar.
Os riscos estão aqui na Europa, na Ucrânia, que inclui a Crimeia, são, também e sempre, no Oriente próximo e médio, na América do Sul que não aceita mais garrotes, são em África e na Ásia. Cada um de nós tem responsabilidades no tempo que vive.
Cá por casa, tem de se falar, de novo, na OurémViva. É natural dada a importância que a empresa municipal tem na gestão autárquica. E porque de outras coisas não quero falar.
Como eleito que se sabe que sou, tenho sido procurado e questionado por cidadãos trazendo-me problemas que vivem e se atribuem à gestão da OurémViva. Há, não se nega até sc valorizam, aspectos muito meritórios da sua actividade, mas há problemas sérios nas piscinas, quer no que respeita ao aquecimento e caldeiras, a “anomalias técnicas” (na informação de Dezembro de 2013), referida agora como “anomalia na caldeira”, quer quanto a segurança e, sobretudo, a prevenção no piso e em situações de emergência, que se alarga a toda a actividade relacionada como apoio escolar, quer relativamente a serviços prestados por terceiros que os recursos humanos consignados à empresa poderiam satisfazer.
Aliás, na sessão de há precisamente um ano, afirmávamos: «Este contrato que nos é apresentado vem acrescentar em muito as competências da Ourém Viva, empresa esta que sendo municipal está no nosso entender, a assumir grandes proporções e a ter competências que deveria ser a C-M. a assumir. Por outro lado, não entendemos como se aumentam áreas de intervenção e trabalho e como refere o contrato, se reduz pessoal e custos.». E com o Conselho de Administração em “banho maria” ou em “stand by”!...
Para mais, para o que nos tem sido chamada a atenção e aqui se deixa como preocupação, recursos internos não suficientemente aproveitados com exagerado, dispensável e dispendioso recurso a serviços externos.
Muito, para além disto, haveria a dizer… mas o tempo é escasso e esgota-se depressa para tanto problema. Mas algo tem de ficar dito no deliberativo para atenção do executivo e informação deste aos membros deste orgão.

Disse. 

AM de 28.02.2014 - 2

Informação escrita do Presidente da Câmara:

01.03
Tenho, em toda a evidência, um conceito diferente do do Presidente da Câmara quanto à informação que tem cabimento neste órgão autárquico, apesar de já ter valorizado como facto muito positivo a apresentação antecipada dessa informação.
Quanto a mim ela não deve ser um relato exaustivo – e que tanto nos exausta… na procura de, no meio de tanto joio, encontrar o trigo  –, não deve ser o relato da actividade em termos promocionais, para não dizer de propaganda, mas sim o trazer a este órgão a informação dos problemas mais relevantes da autarquia no intervalo entre sessões, e assim se procurar uma inter-acção institucional.
É verdade que a informação começa pela saúde, e a criação da Unidade Familiar em Ourém – mas sem relevar o artifício que tal representa em relação ao Serviço Nacional de Saúde –, que se escreve, na informação, sobre a preparação do Centenário em Fátima – mas levantando-me sérias preocupações, no quadro do muito respeito que tenho por quem crê, quanto a previsíveis distorções da verdade histórica –, é verdade que nela se lê sobre a defesa do património e se refere a questão da Igreja de Nossa Senhora da Purificação, no Olival com alguns factos, mas esquece-se a vinda de um responsável da Comissão Europeia, trazido por então deputado no Parlamento Europeu, e o que essa visita representou para a defesa do mesmo património, nomeadamente no caso dessa Igreja.
Mas, depois desse começo, é o relato embalado de factos e coisas, até mesmo na parte relativa à OurémViva, em relação à qual se esperava alguma informação que completasse, nesta sede, o que os eleitos apenas conhecem pela comunicação social e despacho de presidente de outra Câmara, nem por isso muito vizinha nossa… e não só no caso dos hospitais. Questão relativa ao lugar de presidente do Conselho de Administração da OurémViva, objecto de vários pontos da Ordem de Trabalhos da nossa última reunião, e que procurei que fosse ponto da agenda desta, mas os meus confrades na reunião de líderes assim o não entenderam por, ao que argumentaram, a iniciativa dever partir do Presidente da Câmara. Que não a teve!

Ainda tive esperança que a página suplementar aqui distribuída dissesse alguma coisa sobre tão delicado problema… mas desiludi-me. A mim, que sou pouco dado a ilusões.