terça-feira, 13 de maio de 2014

Eleições à porta

Embora ande muita gente distraída – com o futebol, com as “saídas limpas” carregadas de falácias e mistificações mas que criam falsas esperanças, com o sol que chegou e convida a banhos do dito… nem que seja à porta de casa, com muitos etcs. – vai começar a campanha para a eleição, no dia 25 de Maio, dos deputados portugueses para o Parlamento Europeu. Entre 22 e 25 de Maio assim acontecerá nos países que são os agora Estados-membros de uma associação chamada União Europeia. E assim acontece desde 1979, sendo esta a 8ª vez que se realizam tais eleições em que os portugueses participam, escolhendo os seus representantes, desde 1989 (isto é, desde a 3ª vez). Sendo o homem as suas circunstâncias, as minhas fizeram com que tivesse sido candidato nas 3ª, 4ª, 5ª e 6ª, e sido eleito por forma a cumprir o todo ou parte desses 4 mandatos. Lembro-o como de um dever cumprido (e comprido!).

Olho esse(s) período(s) da minha vida como tempo de muita responsabilidade, de muita aprendizagem (a somar ao sempre pouco que se sabe), de muito trabalho. Lembro que reforcei a consciência da importância que essa frente de trabalho (e luta… como todas)) pode ter para todos nós. Por isso me enervo e denuncio quem não tem (ou não quer ter) essa consciência e faz, da passagem por eleito pelo povo português, um passeio (bem pago), um devaneio (para usofruto pessoal), um passo (um trampolim) numa “carreira”.

Por isso me choca e agride (sem intenção do agresssor…) ouvir aquela costumeira diatribe de “são todos iguais!”. 

Na derrapagem (que desejo controlar) de falar do que fiz, aconteceu-me que, ao ir consultar estatísticas no site oficial do Parlamento Europeu para confrontar prestações de deputados eleitos, espreitei os dados que a mim respeitam, não como Narciso se vê ao espelho mas em exercício de auto-crítica. Comecei por confirmar que, na 6ª legislatura, estive lá de 20 Julho de 2004 a 11 de Janeiro de 2005 (4 escassos meses úteis). (Tão cedo sai por ter tido a “sorte” de ter conseguido um importante relatório para os pescadores portugueses (sobretudo açoreanos), que vi aprovado apesar de forte oposição, sobretudo de espanhóis na defesa de interesses ligados à pesca de fundo e arrasto, tendo assim cumprido o compromisso para aceitar ser candidato por considerar ter justificado a minha eleição, sendo substituído por quem me seguia na lista, que estava “na calha”… até pela idade). Curiosamente, o cabeça de lista do PS para 25 de Março, que cumpriu todo o mandato – ou seja, 5 anos! – também apenas fez um relatório, fez o mesmo número de intervenções em plenário que eu (26) e fez apenas 9 perguntas parlamentares enquanto eu fiz 13!

Depois ninguém se admire que fique irritado quando ouço a tal frase dos “todos iguais”… Aliás, o João Ferreira, durante a 7ª legislatura fez só (!!!) 1854 intervenções, 57 relatórios e pareceres e 811 perguntas, e a Inês Zuber (2º nome da lista da CDU para 25 de Maio) e a Ilda Figueiredo (que a Inês foi substituir), durante o mandato que dividiram entre si, fizeram 1651 intervenções, 101 relatórios e 661 perguntas.

Cada número destes mereceria estudo e comentário. Não há tempo, nem espaço, nem (pre)disposição, tão necessários para que a escolha de quem nos represente seja fundamentada Mas esta seria a prática sadia de
democracia, que nem assim se esgotaria na vertente representativa.

Como sempre, daqui até 25 de Maio estaremos à disposição para o esclarecimento que qualquer um achar útil para melhor poder contribuir para a mudança necessária. Porque “isto” precisa de mudar! Ou não?!...

Sérgio Ribeiro
publicado no Notícias de Ourém de 9 de Maio de 2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

João Ferreira em Ourém

João Ferreira,  cabeça de lista da CDU ao Parlamento Europeu estará na sexta-feira, 9 de maio, no distrito de Santarém. João Ferreira estará de manhã em Tomar, à hora do almoço em Ourém, de tarde, em Abrantes e Entroncamento, jantando com apoiantes nesta localidade ferroviária. Pelas 21h30, o eurodeputado estará ainda numa sessão pública em Torres Novas.


12,30h - Ourém, contacto com comerciantes e a população.

domingo, 4 de maio de 2014

Até quando TRABALHADOR?


Entrar às oito da manhã preparada para aguentar seis horas de pé, até que a medo pergunta:
- Posso ir almoçar? Eis que se repete a resposta:
- Quando os últimos saírem podes ir …

Abre com receio o frigorífico, nada será pior do que o que comera no dia anterior, sem espanto repete a refeição, os seus olhos quase não tem tempo para olhar a refeição de requinte a ser servida aos clientes, tem vinte minutos para engolir sem quase mastigar, hoje teve a sorte de ninguém a chamar no seu “grande” intervalo.
Copeira, empregada de sala, loja ou de limpeza, rececionista ou ainda todas numa só, ESCR….Queria dizer o nome mas é demais descritivo para quem possa estar a ler esta crónica.

Esperam-lhe mais cinco horas até que alguma voz se lembre de dizer:
-Vai lá buscá-la …mas não demores, ainda temos três grupos!
Numa corrida chega depois da hora, é convidada a assinar algo que a vai fazer pagar mais na mensalidade, olha para a pequena que lhe esboça um sorriso, mas que teima em não ir com ela, ambas não tem tido tempo de criar laços de confiança.
Num choro penoso lá vão as duas, a casa a vizinha é logo ali a frente…. Já no colo da vizinha a pequena levanta o braço para dizer adeus, algo que aprendera a fazer desde sempre.
De volta conta os trocados que lhe restam no “pobre-moedas”, as despesas aumentam, sabe que já não poderá contar com a reforma da mãe pois essa é repartida com o Estado Português.
A categoria de “economista” junta-se ao seu currículo alargado.
De avental colocado há que fazer cara feliz para não afastar a clientela, prevê-se uma noite longa, a sua saída não sabe, se for como de costume, às nove e pouco está despachadinha.

Ouve-se as dez badalas da Basílica do Santuário de Fátima, só agora recolhe a sua pequena já a dormir.
Amanha é outro dia, irão passar pelo menos mais seis até que possa gozar o seu único dia de folga semanal, pois o fim-de-semana não existe para ela, e ferias? Férias só para o próximo inverno, inverno esse que conta passar num lugar paradisíaco chamado “FUNDO DO DESEMPREGO”.

Com 485 euros mensais e mais umas esmolas por cada fim-de-semana, não deu para juntar nada para umas férias nas Caraíbas ou até mesmo aqui bem perto na Serra da Estrela!
Vai aguardar até que a sua Cidade seja inundada de peregrinos, talvez nessa altura alguém se lembre de a chamar de novo.
Esta é a realidade que já vi e ouvi de varias trabalhadoras e mães a Elas presto o meu voto de louvor.
Ate quando trabalhador? Trabalhador sim, mas com direitos…direito a outra palavra no dicionário, pois a mesma tem outro significado.

Cláudia Filipa Pinéu
in Notícias de Ourém, 2 de Maio 2014

sábado, 26 de abril de 2014

40º Aniversário da Revolução de Abril


Lembrar e comparar….

A Revolução de Abril foi uma realização histórica, nasceu da vontade do povo português, e transformou – se numa afirmação de liberdade, de emancipação social e de independência nacional.
Finalizando uma prolongada e heróica luta antifascista, pôs fim a 48
anos de ditadura, à guerra colonial, ao isolamento internacional de Portugal, e realizou profundas transformações políticas, económicas, sociais e culturais que abriram na vida do País a perspectiva de um novo período da história marcado pela liberdade e pelo progresso social.

A classe operária, os trabalhadores, as massas populares e os militares progressistas – unidos na aliança Povo-MFA – tiveram um papel fundamental em todas as conquistas democráticas, que foram depois consagradas na Constituição da República, aprovada em 2 de Abril de 1976.
Foram elas:
- Liberdade de expressão, de reunião, de manifestação, de associação e de imprensa.
- Liberdade de criação cultural e artística
- Direito à saúde, ao ensino e a segurança social
- Liberdade sindical, direito à contratação coletivas
- Direito à greve
- Salario mínimo nacional, subsídios de férias e de natal
- Subsídio de desemprego, pensões e reformas generalizadas a todos
- Igualdade de direitos para as mulheres e direito à licença de maternidade
- Liquidação do monopólio do Estado e dos grupos económicos a ele associado.
- Reforma agrária, nacionalizações e controlo operário
-Eleições livres e livre formação dos partidos políticos e movimentos sociais
- Direito ao voto aos 18 anos
- Autarquias Locais democraticamente eleitas e criação das Regiões Autónomas
- Melhoria das condições de vida do povo
- Diversificação de relações externas e fim do isolamento internacional

Apesar das suas aquisições históricas, muitas das principais conquistas de Abril foram, entretanto destruídas. Outras, embora mutiladas, continuam presentes na vida nacional.

O 40º Aniversário da Revolução de Abril assinala-se num momento em que o povo português vive uma grave e profunda crise económica e social.
Portugal está debaixo de uma intervenção externa que enfraquece a sua soberania e independência. Assistimos diariamente o aumento da exploração e destruição dos direitos laborais e sociais do povo português; afunda-se a produção nacional, arruina-se a economia, endivida-se o País, destrói-se o Serviço Nacional de Saúde, a Escola Pública, o Serviço Público de Segurança Social, manda-se trabalhadores jovens e mais velhos para o desemprego ou para o estrangeiro….

Está em causa o futuro de Portugal.
Que Portugal queremos?
É este o Portugal que terá futuro?

O futuro de Portugal como País democrático, desenvolvido, soberano e independente, não pode ser assegurado pelos mesmos que trouxeram o País à grave situação em que se encontra.


Está nas nossas mãos, retomar o caminho de Abril!

Margarida Poeta
in Notícias de Ourém, 24 de Abril 2014 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os últimos presos do Estado Novo


O Expresso levou ao forte-prisão de Caxias alguns sobreviventes da última leva de presos políticos. A DGS fora buscá-los a casa na manhã de 18 de abril de 1974.

Um desses sobreviventes é o nosso amigo, companheiro e camarada Sérgio Ribeiro. 


Veja mais sobre a reportagem no caderno especial do jornal Expresso de hoje, "25 de Abril - 40 anos" ou no Expresso Sapo.


E já agora, porque é sempre bom recordar, as imagens que mostram o momento:
Os presos políticos começam a ser soltos, reconhecem-se entre outros, Sérgio Ribeiro e Palma Inácio que é abraçado por Urbano Tavares Rodrigues a Sophia de Mello Breyner e presta as primeiras declarações.



terça-feira, 15 de abril de 2014

A Feira dos Produtos da Terra e por aí fora


Chegam-me ecos de que a Feira dos Produtos da Terra teve impacto, que teria sido um êxito e que se firma como iniciativa já com passado e com futuro.

As reflexões que tal me suscita são contraditórias. Por um lado, encontra-se, nessa iniciativa e sua concretização, o reflexo do que mais valorizo na sociedade, que é a capacidade (histórica, milenar) de resistir aos ataques, às agressões, de se movimentar como corpo vivo, de, na procura de satisfação das suas necessidades, encontrar formas, diria… informais, de se organizar, ou seja, de, numa terminologia que inverte e subverte o matraqueado como lugares comuns, frases feitas, “narizes de cera”, e dá pelo nome (ou expressão) de “a crise criar oportunidades”; por outro lado, e partindo deste papaguear, mas dando-lhe outro sentido, estas iniciativas podem amortecer os efeitos da crise, como são exemplos, também, as (e)migrações, tornando tolerável o que, sem essas respostas do corpo vivo que é a sociedade, seria intolerável e mais depressa levaria às inevitáveis e urgentes mudanças.

Mas é assim, e nunca se defendeu (ou nunca defendemos) posições de “quanto pior melhor” para sobre as ruinas irrecuperáveis construir o novo, como se o novo pudesse começar sem o aproveitamento do que o velho de bom vai deixando. Uma questão a que Abel Salazar chamava “totalização de experiência”. Sim, porque partilho a ideia de que a revolução não é queimar a terra, é limpá-la do que a impede de produzir, é mudar a qualidade das coisas que atingiram o seu limite de acréscimos quantitativos, é substituir, de forma radical, as relações sociais que são obstáculo à humanidade e ao seu futuro.

Acresce que, neste momento (histórico como todos, mas uns mais que outros…), o economista que sou tem de estar atento à deflação, isto é, em vez da ilusão monetária que fazia os rendimentos das gentes correrem atrás dos preços sempre a subir, da inflação, o ataque brutal a esses rendimentos tem de ser compensado, como num sistema cibernético (demasiado frio/aquecimento, demasiado calor/refrigeração), com alguns preços em baixa para que as necessidades básicas permitam a sobrevivência. Em condições precárias porque se destroem serviços públicos como os relativos à saúde e à educação antes de todos – vivendo com menos qualidade, morrendo mais cedo, aprendendo menos da vida e da história, acumulando saber seleccionado e apenas orientado para o serviço da acumulação de capital nas mãos de poucos –, aos transportes, ao ambiente, ao viver em sociedade com direitos e deveres, de tudo se fazendo negócio, fazendo do negócio o único meio e do mercado o único juiz.

Pagam-se mais impostos, desconta-se mais nos salários para melhoria das funções e tarefas que ao Estado competem? Não! Para que quem explora o que é de todos (e, antes de tudo, o trabalho) o continue a fazer, para que a especulação remende os desastres que provocou sem qualquer peso, conta ou medida e prossiga na mesma senda, sem que sequer se penalizem os que evidentemente agrediram a (sua) lei e que, com migalhas do resultado desses crimes paguem advogados e expedientes legais que os tornem impunes.

Esta União Europeia, que prometido foi que faria correr rios de mel para todos, vai concentrando o que é doce só em alguns (países e sobretudo estratos sociais), e deixando mais fel para… os outros (países e sobretudo camadas sociais). Claro que estas dinâmicas, servidas por estas estratégias, são insustentáveis a prazo. Mas que se importam eles, dizia Keynes, se a longo prazo todos estaremos mortos, e há quem se encarregue de, por menor acesso ao que é conquista de todos, ou por uso e usofruto da mercadoria privilegiada que são as armas, encurte os prazos em que a maioria poderia viver com qualidade humana.


Ao que me trouxe a Feira dos Produtos da Terra! À esperança que cresce enquanto a raiva se multiplica, como diria o/um poeta.     

Sérgio Ribeiro
in Notícias de Ourém, 11 de Abril 2014 



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Carta ao meu país ausente

Cresci no meio da esperança. Abril estava ainda fresco, muito embora – sei-o  hoje – já com as traições Barreto/Soares/Cavaco em marcha.  Lembro-me das palavras ternas, lá em casa, quando se pronunciavam as conquistas, os avanços, as esperanças… sempre as esperanças.
Das poucas vezes que vi água nos olhos ternos do meu pai, foi ao falar (gritar ternura?) da Reforma Agrária  no mais sublime slogan que a justiça usa para se vestir no alfabeto: «se lhe dás sangue e suor é justo que te pertença!» . Eram tempos de alento, de meiguice, de infância, é certo (minha e da Revolução), mas de tremenda alegria, como sempre são os Homens Povo quando sentem o destino nas mãos. 
Lembro-me do meu pai ir mostrar-me Coimbra, a Universidade, sabendo que agora estava ao alcance de todos, pois Abril era a alegria universal.
Lembro  slogans pintados nas paredes caiadas do sul (atravessado a cumprir o direito às férias que só Abril soube!) « Casas caiadas e pão!», e as letras dos coros alentejanos reforçando a certeza de melhor velhice, na assistência inaugurada com as UCP – que também trouxeram as primeiras creches (e o pleno emprego, e o pão, e o pão e o pão…).
Tive uma infância saborosa, nas guloseimas que a avó Mimi comprava com a pensão de sobrevivência que Abril lhe outorgou.   Bebi dos pacotinhos de leite que Vasco Gonçalves obrigou nas escolas para colmatar as carências das infâncias .  Os médicos (e até palhaços, sabiam?) visitaram-nos na escola primária para que a geração de Abril não soubesse  do trabalho ainda meninos nem das doenças que nenhuma infância merece.  
Vi velhos aprenderem a ler. Soube da garantia do salário mínimo. Vi crescer escolas, hospitais, saneamento básico, electrificação  das aldeias, centros de saúde, creches e o jardim infantil  onde, montado em cavalos de ferro,  sonhei um Abril ainda maior, estendendo a sua alegria a todos os meninos do mundo. 

Hoje, vendo sofrer um país real em nome de um país só visto pela especulação do neo-fascismo capitalista, vendo amigos e irmãos a abandonar a sua terra, assistindo à entrega  da nação ao imperial interesse dos agiotas, rememoro tempos contados de espancamentos, torturas, fomes. Abril está longe. Mas mesmo na noite mais triste….

António Lains Galamba
 in Notícias de Ourém, 5 de Abril 2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Eles que emigrem

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta, mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- Foi o pai que chegou, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o nosso menino?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores filho! Já tens pai!
Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…
Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!
Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai, talvez por ser 19 de Março, talvez porque tenho pensado em emigrar e encontro nestas pequenas histórias de família força para não o fazer. Também, se mais razões não houvesse, só o facto de eles nos aconselharem a partir, já é razão suficiente para ficar.


Luís Neves
in Notícias de Ourém, 21 de Março 2014

domingo, 16 de março de 2014

Coisas cá da terra

Talvez seja inoportuno e até inconveniente, advertir que as Coisas cá da terra, também são Coisas cá na terra.
Uma consequência natural das Coisas cá da terra, não serem só coisas cá na terra, é, apesar das coisas cá na terra serem Coisas cá da terra, as coisas cá da terra não são necessariamente Coisas cá na terra.

É nesta altura, ou profundidade, da confusão, que o anunciante o mima com o embrulho promocional da saída com solução (e ainda oferece uma lágrima, uma massagem capilar e um seguro de saúde). Ainda bem que suspeitou, sobram-lhe razões para isso.
Vossemecê sabe bem que a indignação mal arrumada, comporta sérios riscos para a saúde, e, sendo esta o bem-estar físico, psíquico e social, todos os cuidados são poucos.
 Desconfie logo de comportamentos estranhos como, pessoas ao estalo...na própria cara, na sua, e na que estiver mais à mão. Há outros sinais e sintomas, todos eles contribuindo para – Estados – de delírio e confusão. Proteja-se e informe-se. Estas circunstâncias tornam-nos muito vulneráveis, e são sempre aproveitadas por oportunistas, expondo-nos constantemente às propensões liberais, sempre novas e modernas, para o gamanço...da nossa Saúde, que é como sabe, o bem-estar físico psíquico e social (estou a repetir-me?).

As coisas mudaram caro cidadão.
Extinguiram-se os assaltantes de bancos, para passar a haver assaltos com bancos; quando julgávamos que os falsários só andavam por aí nos montes trocando o dinheiro por notas falsas, ou se tinham emendado, eis que achamos no bolso o dinheiro deles, que mais parece areia do deserto, ou um monstro que rapa todas as migalhinhas da mesa, que corrói os rendimentos e a vida como se fosse um qualquer parasita, cuja cura e melhor solução é, Aguente-se! Tome um Aguente-se! de doze em doze horas, e...Aguente! Aguente! que isso passa, sobretudo não faça nada, não combata essa misteriosa doença, não agrave o seu – Estado -, porque aí a culpa é toda sua! Para se defender, faça de conta que não tem nada, sequer nada que ver com isso. Siga escrupulosamente a prescrição do Aguente-se! qualquer dúvida, consulte as indicações do seu farmacêutico ou prescritor favorito, numa televisão ou jornal perto de si, que é para isso que eles lá estão, diariamente, de manhã à noite informando-o da evolução desta epidemia, notificando, no seu interesse, sempre que for necessário aumentar a dose do Aguente-se! Aguente e não vacile, tome logo o Aguente-se! que, obviamente, se não for óbvio não tome, é tudo para aguentar bem e melhor.

Ah, e, acima de tudo ou em cima de tudo, mantenha a esperança, a confiança e em especial o consentimento. O Belmiro, o Amorim, o Ulrich e mais umas centenas de novos casos conhecidos, são um exemplo flagrante de que é possível aguentar esta pandemia (que é como se diz quando o gamanço da saúde é global), com recuperações tão validadas e indiscutíveis, que ganham fama internacional nas mais conceituadas revistas da especialidade.

 P.S. se se sentir com náuseas, tremuras, bruxismo (que é o ranger de dentes), rigidez na mão, ou compressão torácica, isso significa que a sua zona de conforto está contaminada. Os especialistas têm recomendado o abandono imediato dessas zonas.


Marco Jacinto
in Notícias de Ourém, 14 de Março 2014

segunda-feira, 10 de março de 2014

Discreteando, discretamente


As reuniões da Assembleia Municipal sucedem-se. Umas vezes, sentindo que são poucas para o que seria necessário; outras, pensando que não valem a pena. Se depende da variação do estado de espírito, estas mudanças resultam, objectivamente, do estádio a que, no consenso geral, se chegou (ou se não chegou) à consciência do que é democracia.

Vou no 5º mandato autárquico (e mais um na AM da Amadora), e não vejo a evolução que tanto desejo (e por que, bem ou mal, tanto lutei e luto).
Os cidadãos elegem os seus representantes periodicamente – de 4 em 4 anos para a AR e autarquias, de 5 em 5 anos para PdaR e para o PE – e, depois, ficam à margem da política… Ou a discutem – sem cuidarem de se informar – a partir de ludíbrios como o de haver uma “classe política” que “vem ao mercado” de 4 em 4 e 5 em 5 anos.

Pois a democracia exigiria que os cidadãos acompanhassem, nos locais próprios, o modo como os eleitos exercem os mandatos de que foram investidos, como cumprem aquilo a que se propuseram e terá merecido os votos concidadãos. Que participassem!
Continuarei a lutar…

A reunião de 28 de Fevereiro foi mais uma. Sem público, ou sem intervenção de público, em que os “eleitos” fizeram o seu “número” , ou marcaram presença para receberem a respectiva senha (os que a recebem).

Nela até nos vimos obrigados a afirmar que não tinha intenção de ofender o uso da expressão “separar o trigo do joio”, aliás vinda de um catecismo que não é o nosso. Mas não deixaremos de a usar ou, em alternativa, a de que se “atira areia para os olhos” quando, na reunião de 27 de Dezembro, se saúde quem, alardeando um arreigado amor a Ourém – como se disse mas não ficou em acta –, se dispôs a cumprir, a partir de 1 de Janeiro, um mandato de presidente do Conselho de Administração da EM OurémViva – o que até nos levou a mudar o voto contra para abstenção solidária – e, na reunião seguinte, nesta de Fevereiro, nada se dissesse sobre a mudança verificada, no curtíssimo intervalo, na situação desse lugar fulcral da administração autárquica. Silêncio que foi impedido, por nós, que acontecesse.

Assim como não deixaremos que “soluções” – por mais legais que sejam – acolham, sem protesto, estatutos como o de alguém ser assessor de si próprio. Ou que, por via de exigências legais, e suas formulações, tenhamos de continuar a considerar de interesse público o que, pelos precedentes, tem servido para devastar povoações. Ou que, sem o protesto de um representante (ainda que único), se arranjem artifícios aparentemente muito benéficos para os “utentes” enquanto se destrói o Serviço Nacional de Saúde, privatizando o negócio da doença. Ou que, em sede de um lugar político, fique sem referência e alerta a situação mundial que se vive e configura um demencial caminho para uma guerra que seria (como tem sido e já é) um desastre humanitário.  


Sérgio Ribeiro
in Notícias de Ourém, 7 de março 2014

segunda-feira, 3 de março de 2014

AM de 28.02.2014 - 5

Proposta camarária relativamente ao licenciamento de uma pedreira por interesse público:

02.02
Declaração de voto:
O Grupo por Ourém votou contra por ter tido insuficiente informação (apenas a conclusão de parecer pedido a advogado, enquanto os vereadores fundamentaram o seu voto em todo o parecer) e pelo precedente de se considerar de interesse público o que vem destruir povoações como é o caso flagrante de Boleiros. 

AM de 28.02.2014 - 4

Intervenção sobre a moção proposta pelo presidente da Junta da freguesia “União de freguesias da Gondemaria e Olival” relativamente à Igreja de N. S. da Purificação, no Olival:

Evidentemente que o Grupo por Ourém votará a favor. E, na sequência de intervenção já feita aquando da informação do Presidente da Câmara, lembra-se a visita ao nosso concelho de responsável da área cultural da Comissão Europeia, promovida pelo então deputado no Parlamento Europeu que vivia e vive em Ourém, e em que esse responsável da Comissão foi contundente quanto à eventual destruição da “igreja velha do Olival”, considerando-a um crime.
Essa visita foi realizada com o apoio do executivo de então, a propósito do novo telhado da Sé Colegiada de Ourém, para que se tinha conseguido subsídio comunitário, e esse responsável da Comissão visitou outros locais de interesse histórico-patrimonial, como essa igreja da N. S. da Purificação, a capela de S. Sebastião, a ermida da N. S. da Conceição, e abriu possibilidades de cooperação sobre património histórico-cultural num debate realizado no final da visita, na sala onde então se realizavam as sessões da Assembleia Municipal.

Dessa visita terá resultado, pelo menos…,alguma melhor ponderação quanto ao destino a dar à “igreja velha do Olival”, possibilitando que, hoje, se faça a proposta deste voto.

AM de 28.02.2014 - 3

Declaração política (condicionada a tempo regimental):

01.04
Senhora Presidente, membros do executivo, eleitos da Assembleia, público, comunicação social,
as minhas  saudações
Depois das saudações, tenho de começar como na reunião do mesmo dia do ano passado, como fiz na reunião de 27 de Dezembro do ano passado… e por aí atrás:
«Mais cortes, declínio, exploração e empobrecimento, é o que o governo anuncia e pretende impôr a propósito da chamada sétima avaliação da
”troika, realizada no quadro do aprofundamento da recessão que o próprio governo foi forçado a reconhecer.
Ou seja o prosseguimento das falências, desemprego e endividamento.
O descalabro económico e social a que a atual política tem conduzido está cada dia que passa mais presente no País(…)». Diria cada ano que passa!

E a luta que continua contra esta política que prossegue, agora entre o resgate e o programa cautelar. E as eleições para o Parlamento Europeu uma semana depois de termo do que se pretende continuar comoutra fachada e crismado com outro nome. Dar-lhe-emos luta.
O que acontecerá num contexto internacional perigosíssimo que, sem alarmismos ou catastrofismos, nos devia preocupar a todos, dado o caminho para uma guerra generalizada. Caminho que tem de se travar.
Os riscos estão aqui na Europa, na Ucrânia, que inclui a Crimeia, são, também e sempre, no Oriente próximo e médio, na América do Sul que não aceita mais garrotes, são em África e na Ásia. Cada um de nós tem responsabilidades no tempo que vive.
Cá por casa, tem de se falar, de novo, na OurémViva. É natural dada a importância que a empresa municipal tem na gestão autárquica. E porque de outras coisas não quero falar.
Como eleito que se sabe que sou, tenho sido procurado e questionado por cidadãos trazendo-me problemas que vivem e se atribuem à gestão da OurémViva. Há, não se nega até sc valorizam, aspectos muito meritórios da sua actividade, mas há problemas sérios nas piscinas, quer no que respeita ao aquecimento e caldeiras, a “anomalias técnicas” (na informação de Dezembro de 2013), referida agora como “anomalia na caldeira”, quer quanto a segurança e, sobretudo, a prevenção no piso e em situações de emergência, que se alarga a toda a actividade relacionada como apoio escolar, quer relativamente a serviços prestados por terceiros que os recursos humanos consignados à empresa poderiam satisfazer.
Aliás, na sessão de há precisamente um ano, afirmávamos: «Este contrato que nos é apresentado vem acrescentar em muito as competências da Ourém Viva, empresa esta que sendo municipal está no nosso entender, a assumir grandes proporções e a ter competências que deveria ser a C-M. a assumir. Por outro lado, não entendemos como se aumentam áreas de intervenção e trabalho e como refere o contrato, se reduz pessoal e custos.». E com o Conselho de Administração em “banho maria” ou em “stand by”!...
Para mais, para o que nos tem sido chamada a atenção e aqui se deixa como preocupação, recursos internos não suficientemente aproveitados com exagerado, dispensável e dispendioso recurso a serviços externos.
Muito, para além disto, haveria a dizer… mas o tempo é escasso e esgota-se depressa para tanto problema. Mas algo tem de ficar dito no deliberativo para atenção do executivo e informação deste aos membros deste orgão.

Disse. 

AM de 28.02.2014 - 2

Informação escrita do Presidente da Câmara:

01.03
Tenho, em toda a evidência, um conceito diferente do do Presidente da Câmara quanto à informação que tem cabimento neste órgão autárquico, apesar de já ter valorizado como facto muito positivo a apresentação antecipada dessa informação.
Quanto a mim ela não deve ser um relato exaustivo – e que tanto nos exausta… na procura de, no meio de tanto joio, encontrar o trigo  –, não deve ser o relato da actividade em termos promocionais, para não dizer de propaganda, mas sim o trazer a este órgão a informação dos problemas mais relevantes da autarquia no intervalo entre sessões, e assim se procurar uma inter-acção institucional.
É verdade que a informação começa pela saúde, e a criação da Unidade Familiar em Ourém – mas sem relevar o artifício que tal representa em relação ao Serviço Nacional de Saúde –, que se escreve, na informação, sobre a preparação do Centenário em Fátima – mas levantando-me sérias preocupações, no quadro do muito respeito que tenho por quem crê, quanto a previsíveis distorções da verdade histórica –, é verdade que nela se lê sobre a defesa do património e se refere a questão da Igreja de Nossa Senhora da Purificação, no Olival com alguns factos, mas esquece-se a vinda de um responsável da Comissão Europeia, trazido por então deputado no Parlamento Europeu, e o que essa visita representou para a defesa do mesmo património, nomeadamente no caso dessa Igreja.
Mas, depois desse começo, é o relato embalado de factos e coisas, até mesmo na parte relativa à OurémViva, em relação à qual se esperava alguma informação que completasse, nesta sede, o que os eleitos apenas conhecem pela comunicação social e despacho de presidente de outra Câmara, nem por isso muito vizinha nossa… e não só no caso dos hospitais. Questão relativa ao lugar de presidente do Conselho de Administração da OurémViva, objecto de vários pontos da Ordem de Trabalhos da nossa última reunião, e que procurei que fosse ponto da agenda desta, mas os meus confrades na reunião de líderes assim o não entenderam por, ao que argumentaram, a iniciativa dever partir do Presidente da Câmara. Que não a teve!

Ainda tive esperança que a página suplementar aqui distribuída dissesse alguma coisa sobre tão delicado problema… mas desiludi-me. A mim, que sou pouco dado a ilusões. 

Intervenções eleito CDU na AM de 28.02.2014 - 1

Acta da reunião de 27.12.2013:

01.01

·       Sublinho que as páginas 8 a 100 comportam a declaração do Presidente da Câmara
·        Em 171 páginas!...,que ainda desejo ver encurtadas
·        Não faz sentidos que a paginas (ou Fls.) 158 e 159, 164 e 165, 167 e 168 se repita a minha intervenção no ponto 02.11 (pág. ou FL.154).
·        Como não se deve repetir a declaração de voto de páginas (ou Fls.) 160, 166, e 169
·        Em contrapartida não posso aceitar que em acta tão exaustiva – e cumprimento os serviços pelo seu trabalho – se tenha olvidado a referência à intervenção do Presidente da Câmara relativa à decisão do então aprovado presidente do Conselho de Administração da Ourém de continuar nesse lugar pelo seu sentido de amor a Ourém e mais encómios.
·        

Em face disto, abstive-me pois o voto favorável 
estaria condicionado pela adopção das alterações.





domingo, 2 de março de 2014

Uma história brasileira


Simão Bacamarte, médico famoso da pena de Machado de Assis, desconfiava que a loucura dos homens não era uma ilha pequena, era um enorme continente. Por isso, resolveu fundar a Casa Verde, um manicómio onde iria internar os loucos, para os poder estudar cientificamente. Mas achou a loucura tão espalhada, que não havia lugar para internar todos os que padeciam da doença. E assim, acabou ele próprio por se trancar sozinho no manicómio, porque concluiu que era a única cabeça lúcida de Itaguaí.

Esta pequena história do século XIX brasileiro, O Alienista, não me sai da cabeça por estes dias, desde que ouvi na TV o Passos Coelho dizer que Portugal está agora melhor do que estava há dois anos. Razão tinha Simão Bacamarte, a loucura e a alucinação estão tão espalhadas e são muito mais vastas do que poderíamos imaginar.

Ora, se toda a gente sente na carteira e na pele que os ordenados são mais curtos, os preços são mais altos, os serviços mais distantes, qual é o Portugal de que fala o primeiro ministro?
Eu pensava até àquele dia que Portugal era, resumidamente, três coisas: o povo, o território e a história.

Quanto à história e cultura de Portugal, não a vejo nada enriquecida nestes dois anos. A não ser em quantidade, Portugal está dois anos mais velho. Mas isso dificilmente se pode considerar uma melhoria. E a cultura vai-se reduzindo, entre leilões e não leilões de Mirós e outros do género.
O território parece que é o mesmo, sem melhorias significativas, porque as obras pararam todas nos dois últimos anos. O que há a mais são os prejuízos do recente temporal. E há uma nova pretensão de que somos, à conta de um par de cagarras que o Presidente anilhou, mais mar do que terra. O que também não é muito reconfortante.
Quanto ao povo, está global e claramente pior do que estava há dois anos. Com menos dinheiro e menos oportunidades.
        
De que fala então Passos Coelho? Como um novo Simão Bacamarte, Passos Coelho e o governo, falam da sua espetacular lucidez, que lhes permite ver o que mais ninguém vê. E nós todos, loucos e incapazes de ver a miragem que nos querem mostrar, não temos lugar neste manicómio em que se tornou a política em Portugal.

         
A melhor solução é sem dúvida a do Alienista: feche-se, Dr. Simão, no seu manicónio particular e deixe-nos a todos cá fora. Porque, definitivamente, estamos sintonizados em ondas diferentes.


João Filipe Oliveira
in Notícias de Ourém, 28 de fevereiro de 2014 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Boleiros... mais uma vez!

O caso das pedreiras na povoação (de terra povoada!) de Boleiros arrasta-se há anos. As pedreiras vão invadindo e esburacando o que já foi terra conhecida pela sua vida cultural, desportiva, pelas auas potencialidades, como se não houvesse mais serra e pedra para extrair que não ali.
Já aqui, e em colunas dos jornais locais, tratámos do assunto várias vezes. Esta será mais uma.
A população de Boleiros pediu ajuda a elementos da CDU, estes trouxeram a Boleiros o vice-presidente da Assembleia da República e deputado eleito no distrito, António Filipe













Este veio ao local no dia 1 de Fevereiro. Para se informar, para ver e ouvir. Como o Notícias de Ourém e o Notícias de Fátima deixaram notícia.
















Na comunicação social local, em artigos de opinião, aproveitando a visita, mais uma vez levantámos o problema. Que se agrava.
Entretanto, o Doutor António Filipe fez uma pergunta ao Governo, por via da Presidente da Assembleia da República, a que esta deu andamento em 13 de Fevereiro com o nº de registo 1045/XII (3º)
Aqui a transcrevemos:






















Sublinhamos as perguntas:






sábado, 18 de janeiro de 2014

Tenho de ir ali fazer um telefonema

Falar de saneamento básico provoca sempre riso e, em oposição, também o riso pode provocar uma ida apressada aos sanitários. Obrar é um ato solitário por excelência, a sua abordagem tanto provoca humor como constrangimento mas o desenvolvimento urbano tornou o assunto sério, exigindo a confluência das excreções de todos e bem assim do seu encaminhamento e tratamento, chegando ao ponto de já existir o Dia Mundial do Saneamento -19 de novembro.

Por cá, lá para os lados do Agroal, já se dão voltas a muita desta matéria mas estamos ainda longe de atingir os cem por cento de cobertura de rede de saneamento. Este um objetivo sempre prometido em tempo de eleições, com garantia de conclusão a prazo de mandato mas sempre adiada, talvez porque as pessoas não se preocupam muito com estas necessidades. Afinal de contas, elas sempre fizeram as suas necessidades sem morrerem afundadas no resultado da satisfação delas.

Manda a ordem natural das sociedades que o saneamento básico é serviço público e, é portanto respeitável, que quem se candidata aos cargos públicos do município se preocupe com o assunto incluindo-o nas suas agendas eleitorais. Assim foi nas últimas eleições autárquicas em que o PS local pôs também a boca no saneamento e, fazendo uso da sua génese socialista, tirou da sacola a parceria público-privada  como solução. Produziu até um documento de 12 páginas sobre o assunto na modalidade popular de “respostas a perguntas frequentes” onde tenta provar as “só vantagens” do modelo proposto. Apesar do conhecimento dos resultados catastróficos destas engenharias financeiras no plano nacional, apesar da consciência que, no mínimo, qualquer câmara municipal deve ter capacidade técnica para gerir os esgotos, apesar de se reconhecer, entre risos, que o cúmulo do capitalismo é alguém ganhar dinheiro com os nossos excrementos, a sociedade oureense calou-se, consentindo. Ou melhor, borrou-se para o assunto!*

Qual não é pois o espanto, a notícia do possível abandono da promessa, tapando as “só vantagens” com obstáculos e inconvenientes e, hábeis a fazer listas para justificar as suas teses, apresentam entre as suas razões o fim do investimento por “tendência pouco positiva na evolução da população do concelho”. Visto assim, este argumento até assusta porque pode justificar a inércia generalizada em todos os empreendimentos e merece por isso o contraditório.

É que pode também dizer-se que “não me apetece ir reproduzir porque não tenho saneamento básico”! Não vá é alguém responder: nesta matéria é preferível continuarmos numa situação terceiro-mundista (como lhe chamou o presidente da câmara)  uma vez que nesses meios há mais nascimentos.

E vai daí, com o aprofundamento destas formas de argumentário político, corremos o risco de acabar a monte de jornal na mão. Espero que, então, prosas destas não provoquem em certos leitores a vontade e o prazer de, fitada a triste figura que encabeça esta coluna, se venham a aliviar fazendo um telefonema para dar a esta folha o destino que sabemos. 

* O que não foi o caso do eleito da CDU na assembleia municipal de 04.10.2012, em que votou contra a modalidade proposta, e na de 27.09.2012, em que fez uma intervenção que, sublinhando a necessidade do alargamento do saneamento básico, "arrasou" a proposta do executivo.

publicado no Notícias de Ourém